A Alta dos Alimentos no Mundo e no Brasil

A Alta dos Alimentos no Mundo e no Brasil
Enviado em 20/05/2008.

O SR. LEONARDO QUINTÃO (Bloco/PMDB-MG. Pronuncia o seguinte discurso.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, as crises sempre vêm acompanhadas de boas oportunidades, e é dessa forma que o Brasil deve encarar a alta internacional dos preços dos alimentos: com preocupação por possível escassez, mas disposto a aproveitar todos os espaços que surgirem para consolidar e ampliar sua posição no comércio mundial.
Apenas no último ano, os preços dos produtos alimentares subiram, em média, 57%, e alguns deles tiveram aumentos espantosos: o do trigo chegou a 130%, o da soja, a 87%, e o do arroz, a 74%.
Como a globalização traz benefícios, mas também dissemina os problemas, o Brasil, mesmo sendo grande produtor, está sentindo os reflexos da alta em alimentos essenciais à nossa dieta. Em Belo Horizonte, por exemplo, o preço do feijão quase triplicou em 12 meses, e o do arroz subiu 22%, mesmo percentual verificado nos derivados do trigo, como o pão e as massas.
É claro que ninguém gosta de pagar mais caro por produtos tão importantes. Entretanto, acertou o Presidente Lula ao observar que essa é "uma inflação boa", pois em grande parte decorre do fato de que mais pessoas estão tendo acesso a uma alimentação de qualidade, e isso acabará induzindo o aumento da produção.
China, Índia e Brasil, que somam mais de um terço da população mundial, estão à frente do grupo de países onde o consumo de alimentos aumentou. São economias em crescimento, com tendência de alta no padrão de consumo de suas populações, impulsionada pela melhoria da renda dos trabalhadores.
A solução lógica para isso não é reduzir o consumo, mas aumentar a oferta - e aí entram em jogo enormes interesses que precisamos superar para garantir ao Brasil a liderança na produção de alimentos.
Agiram bem a Organização das Nações Unidas, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional ao alertar para o problema da alta dos preços, que pode levar à fome cerca de 100 milhões de pessoas no mundo todo. Mas erraram, propositadamente ou não, os que atribuíram a culpa por essa ameaça à produção de biocombustíveis.
A concorrência entre os alimentos e os biocombustíveis é um problema nos Estados Unidos. Lá, subsidiados pelo Governo, agricultores já ocupam 4% de suas terras com o plantio de milho destinado à produção de etanol, que responde por menos de 2% das necessidades de abastecimento de seus automóveis.
No Brasil, apenas 1% das terras cultiváveis está sendo usado para produzir álcool e atender a mais da metade do consumo de combustíveis dos nossos carros. Além disso, como o cultivo de cana-de-açúcar exige rotatividade de culturas, a expansão dos canaviais implica, necessariamente, desenvolvimento de outras lavouras, como as de soja e feijão.
Mais uma prova eloqüente de que nosso programa de biocombustíveis não interfere nos alimentos veio agora, no dia 8 de maio, com a divulgação, pelo IBGE, da quarta estimativa de safra agrícola em 2008. Segundo essa previsão, o País produzirá este ano 142,6 milhões de toneladas de grãos, ou 7,2% a mais do que em 2007.
Ora, se ao mesmo tempo sabemos que o Brasil nunca cultivou tanta cana-de-açúcar e que hoje o consumo de álcool combustível já é maior do que o de gasolina, como insistir na alegação absurda de que o etanol atrapalha a produção de alimentos?
Ao contrário, à medida que pudermos estender em larga escala o programa de biocombustíveis ao transporte de cargas, com o uso do biodiesel, estaremos contribuindo para estancar a alta nos alimentos, em cuja origem está também a disparada dos preços do petróleo.
Por tudo isso, Sr. Presidente, defendo uma postura de cautela diante da crise, mas de determinação para não desperdiçar as oportunidades que ela traz. Aliás, o prestigiado jornal inglês Financial Times já se manifestou no mesmo sentido, ao observar que o Brasil "é a solução óbvia" para o problema da elevação dos preços dos alimentos.
Em matéria publicada no final do mês de abril, o diário britânico observou que o nosso País tem grandes áreas cultiváveis desocupadas e de fácil aproveitamento. O problema, acrescentou, "é que a maior parte da produção agrícola brasileira continua enfrentando tarifas proibitivas e outras barreiras colocadas pelos mercados desenvolvidos na Europa e nos Estados Unidos."
Tratando-se de publicação insuspeita, por sua origem, nem preciso dizer muito mais. É claro que o caminho para evitar a escassez de alimentos e a alta de preços passa pela eliminação dos subsídios nos países ricos, como sempre defendeu nosso Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. São esses subsídios, tão convenientes para os produtores europeus e norte-americanos, que continuam matando muita gente de fome nos países mais pobres.
O Brasil está no caminho certo ao apontar as causas da crise e ao defender sua tecnologia de ponta na produção de biocombustíveis. Este é um momento importante do panorama econômico mundial, e a forma como nos dispusermos a enfrentá-lo determinará muito do que seremos no futuro.
Muito obrigado.